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quarta-feira, 19 de março de 2014

CONFISSÕES DE UM PRESBÍTERO ESCANDALIZADO

Por Adiel Teófilo.

Parece pouco edificante contar aos outros as nossas decepções. No entanto, quando se trata de fatos ocorridos dentro de uma igreja evangélica, creio que é importante mostrar como está se cumprindo a face mais triste das profecias Bíblicas. A finalidade não é desanimar e nem entristecer quem serve a Deus, e sim alertar para que todos se preparem, visando enfrentar os tempos trabalhosos dos últimos dias, porque muitos terão a aparência de piedade, mas negarão a eficácia dela, por causa da conduta pessoal contrária aos preceitos da Bíblia Sagrada. Destes afasta-te” (II Timóteo 3.1-5).
 
Dito isso, confesso aos homens diante de Deus: estou profundamente escandalizado...

A minha grande decepção é com fatos ocorridos dentro da igreja que participei como membro e Presbítero durante mais de quinze anos. Ela faz parte de uma denominação centenária no Brasil, que mudou bastante desde a sua fundação por dois missionários suecos. Atuei nessa igreja como líder de adolescentes, presidente de mocidade, líder de casais, professor de escola dominical, membro de comissão jurídica, além de várias atividades voltadas para o ensino, pregação, evangelismo e visitação de membros.

Trabalhei muito para o Reino de Deus dentro dessa igreja e disso não me arrependo, porém há fatos difíceis de esquecer. Certa vez um pastor, que ainda faz parte da diretoria daquela igreja, tentou me subornar. Propôs que escolhesse qualquer das congregações sob sua liderança, dizendo que iria me nomear como dirigente. Prontamente recusei! Percebi logo que o real propósito era me fazer calar. Isso porque, orientado por Deus em sonho, descobri que ele estava desviando dinheiro da igreja, gastando com diversas despesas pessoais e familiares, e ainda  fazia declarações falsas no relatório financeiro.

É muito triste relembrar isso... Ainda mais porque trabalhei durante trinta e um anos no serviço público e nunca nenhum superior ou colega de trabalho tentou me subornar. Certamente por perceber a seriedade e a honestidade com que sempre desempenhei minhas atribuições, servindo a Deus e não aos homens (Colossenses 3.23).  

Relatei ao presidente da igreja o desvio financeiro que estava ocorrendo e apontei as provas. O conselho fiscal foi convocado e depois das apurações todas as irregularidades foram comprovadas. Tentei assim colocar a salvo o que é do Senhor, entretanto acabei ficando como mentiroso... Para decepção geral, o errado não foi disciplinado, pelo contrário, foi cada vez mais prestigiado pela liderança. Esse fato causou perplexidade e indignação a muitos, porque quando um pequeno cai é logo disciplinado e até excluído daquela igreja, mas quando um dos grandes fracassa recebe toda a proteção do rei.

E assim, para esconder os desvios de dinheiro que aquele pastor praticou, o presidente mentiu para os membros em pleno culto, dizendo que não tinha nada de errado com as finanças da igreja. Tentou ainda varrer toda a sujeira para debaixo do tapete, pedindo reservadamente que a conclusão do conselho fiscal fosse modificada no relatório das apurações. Essa mentira proferida no altar levou ao sacrifício a consciência de várias ovelhas do rebanho do Senhor, pois os membros que sabiam da verdade nunca se conformaram com essa injustiça e ainda sofrem com a dor da decepção.

Tudo isso me deixou perplexo... Fui ensinado desde a infância em lar evangélico a dizer sempre a verdade, qualquer que seja a circunstância, e acreditava que aqueles líderes seguiam esse mesmo princípio cristão. Todavia, fiquei mais surpreso ainda ao saber que aquele pastor, que desviou dinheiro da igreja, ensinava que se for necessário dizer uma pequena mentira para alcançar uma coisa boa, que não tinha nenhum problema. Meu Pai Eterno! Que cristianismo é esse? Será que furtar, mentir, enganar, não é mais pecado? “Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo;” (Levítico 19.11).

Noutra ocasião mais recente, acompanhando a iniciativa de outros membros, manifestei publicamente opinião contrária ao envolvimento da igreja com a política partidária. Isso porque, a principal finalidade desse apoio político, usando a igreja e sem consultar os membros, era favorecer os familiares do presidente com cargos no governo, conforme extensa lista publicada em Diário Oficial, além de privilegiar amigos mais próximos, como aquele pastor que praticou os desvios de dinheiro.

Questionei também a falta de transparência na administração financeira. A igreja estava sendo cobrada judicialmente por dívidas não pagas, com imóvel penhorado pela justiça,  entretanto, a diretoria tinha vendido metade de um imóvel da igreja por quatro milhões de reais, em área nobre de Brasília, para uma construtora que iria concluir a construção do templo no imóvel, porém o templo permanece inacabado e ninguém sabe o que foi feito com o crédito de quatro milhões de reais.  

Diante disso, esperava-se que a diretoria adotasse uma postura digna de cristão. Que falasse a verdade a todos os irmãos, conforme Efésios 4.25, seja comprovando que estão agindo honestamente e administrando com zelo, seja reconhecendo que cometeram erros e estão dispostos a corrigi-los. Mas, lamentavelmente, para vergonha dos evangélicos, nada disso aconteceu...

O que se presenciou, para desapontamento geral, foi o autoritarismo e a maneira antibíblica com que a diretoria daquela igreja usou a disciplina... Na tentativa de fazer calar todos que se manifestaram sobre os problemas que afetavam a igreja, a diretoria aplicou a exclusão de forma arbitrária contra membros e obreiros, inclusive contra mim, sem sequer me ouvir, contrariando dessa forma o preceito Bíblico de Mateus 18.15, desrespeitando o Estatuto da igreja e violando o direito fundamental da ampla defesa previsto no artigo 5º, inciso LV, da Constituição Federal de 1988.

Como se percebe, a disciplina não foi aplicada como meio de correção para a justiça, a fim de resgatar quem falhou, conforme Hebreus 12.6-11. Para tristeza de todos, a disciplina foi usada de forma abusiva, tal como o pai que espanca violentamente o próprio filho. Desse modo, a disciplina cristã foi completamente desvirtuada e empregada apenas como instrumento de retaliação e de represália, a fim de afastar da denominação aqueles que ousaram dizer a verdade diante do engano, ou que contrariam os interesses da cúpula, por mais escusos e obscuros que sejam.

Sei que problemas e corrupção ocorrem em vários lugares. Contudo, graças a Deus, em todos os locais onde trabalhei, por uma década no Exército Brasileiro e na Polícia Civil do Distrito Federal por mais de duas décadas, nunca presenciei ninguém ser punido por dizer a verdade ou porque pediu providências legais. As pessoas que foram acusadas de cometer alguma falta sempre foram ouvidas e puderam se defender usando todos os meios legítimos. Aqueles que de fato erraram, foram devidamente punidos. Os chefes com os quais trabalhei diretamente nunca prevaricaram, sempre adotaram providências para corrigir as irregularidades que tomaram conhecimento.  

Enfim, acreditava que entre líderes cristãos o caráter seria bem melhor, principalmente quando comparados com aqueles que não são evangélicos. Mas, porque será que a diretoria daquela igreja tem se comportado em alguns aspectos pior que os infiéis? Infelizmente, não vale a pena permanecer em uma denominação dirigida por gente assim... a minha decepção é maior que o templo que eles ocupam... 

Que Deus tenha misericórdia deles e faça abundar em meu coração o verdadeiro amor e o perdão sincero.