Defesa do Evangelho busca a prática sincera dos verdadeiros ensinos do SENHOR JESUS CRISTO. “...Sabendo que fui posto para defesa do evangelho. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda” (Filipenses 1.17-18). Participe dessa Defesa! Deixe o seu comentário ao final do artigo ou escreva para o nosso email: adielteofilo@ig.com.br

sábado, 4 de abril de 2015

CRISTIANISMO DO CABRESTO E DA MORDAÇA

Por Adiel Teófilo.
O cabresto é uma correia armada contendo às vezes um tapa-olho, que se coloca na cabeça de um animal para amarrá-lo ou dirigi-lo. Já a mordaça é um pedaço de pano ou fita, que se prende na boca de alguém para impedir de falar ou gritar. Os objetos são reais, mas essas expressões podem ser usadas também em sentido figurado. O cabresto diz respeito ao comportamento de quem se deixa dominar por outra pessoa. A mordaça refere-se a alguém que poderia ou deveria se manifestar, mas por imposição ou medo de outrem permanece calado. 
 
Será que esse sentido figurado está presente no meio evangélico? Será que todos os crentes são verdadeiramente livres para manifestar as suas opniões? Será que podem participar das decisões mais importantes de sua denominação? Vamos buscar as respostas a partir das seguintes reflexões. Existem basicamente três diferentes formas de governo eclesiástico, que prevaleceram nas comunidades cristãs ao longo dos séculos. Esses regimes estão presentes no meio evangélico atualmente, a saber:
 
1) Episcopal ou Prelática: o governo da igreja é exercido por uma pessoa, seja pastor, bispo ou “apóstolo”, tal como sucede nas Assembleias de Deus e em várias neopentecostais – um governa todos;
 
2) Presbiteriano ou Presbiterial: o governo cabe a um colegiado de pastores e presbíteros, que formam o Conselho ou Presbitério, como se verifica nas Presbiterianas – alguns são eleitos para governar por todos; e,
 
3) Congregacional ou Independente: o governo é exercido pela assembleia dos membros, como acontece nas Batistas e Congregacionais – todos governam.
 
Nascido e educado em lar evangélico, pude conviver com cada uma dessas formas de governo ao longo de toda a minha vida. Fui membro da Igreja Batista, Assembleia de Deus e Presbiteriana Renovada, e conheci bem de perto como funcionam e como se comportam os seus dirigentes no exercício do poder eclesiástico. Certamente que cada regime de governo tem suas virtudes e suas limitações, entretanto não há dúvida de que o episcopal é o que mais está sujeito a cometer erros, por concentrar muito poder nas mãos de uma só pessoa. 
 
Essa centralidade de poder está em desacordo com o modelo de governo apresentado pelo Novo Testamento. O Senhor Jesus não submeteu a sua Igreja a nenhum governante individualmente. Pelo contrário, a Palavra de Deus nos mostra claramente que a igreja primitiva foi governada pelo colégio apostólico e por presbíteros (Lucas 6.13; Atos 1.21-26, 5.29, 6.1-7, 8.14, 15.6 e 16.4). E as Epístolas Paulinas confirmam a participação dos presbíteros no governo eclesiástico (I Timóteo 4.14, 5.17-19; Tito 1.5; I Pedro 5.1-3)
 
Myer Pearlman, em sua obra Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, Editora Vida, 7ª edição, página 225, assim escreveu:
 
As primeiras igrejas eram democráticas em seu governo – circunstância natural em uma comunidade onde o dom do Espírito Santo estava disponível a todos, e onde toda e qualquer pessoa podia ser dotada de dons para um ministério especial. É verdade que os apóstolos e anciãos presidiam as reuniões de negócios e à seleção dos oficiais; mas tudo se fez em cooperação com a igreja. (Atos 6:3-6; 15:22; 1 Cor. 16:3; 2 Cor 8:19; Fil 2:25). [...]
 
Vemos claramente que no Novo Testamento não há apoio para uma fusão das igrejas em uma “máquina eclesiástica” governada por uma hierarquia. Nos dias primitivos não havia nenhum governo centralizado abrangendo toda a igreja. Cada igreja local era autônoma e administrava seus próprios negócios com liberdade. Naturalmente os “Doze Apóstolos” eram muito respeitados por causa de suas relações com Cristo, e exerciam certa autoridade. (Vide Atos 15).
 
O modelo episcopal, além do descompasso bíblico, cria um ambiente favorável ao autoritarismo religioso e ao desvirtuamento dos propósitos da igreja, como inúmeros casos têm demonstrado. Sem falar que está na contramão da democracia e da liberdade de manifestação do pensamento que desfruta o nosso país (art. 5º, inc. IV, e art. 220, da Constituição Federal). Excessos pessoais e institucionais são cometidos, porém não há como corrigi-los, porque a liderança não responde pelo que faz. Não está debaixo de responsabilidade e não tem a quem prestar contas dos seus atos. São verdadeiros papas evangélicos e praticam toda espécie de arbitrariedades e desvios de conduta, sob o manto de uma imunidade que não lhes foi outorgada pelas Escrituras.
 
E aquele que ousa questionar os desvios ou abusos é tratado como se fosse inimigo da “obra de deus”. Não raras vezes sofre duras perseguições, inclusive com perda de renda eclesiástica para quem dela depende na igreja. É afastado de todas as atividades e sepultado vivo dentro da denominação! E assim permanece até morrer de tristeza ou escapar com vida para um ambiente cristão que lhe trate as feridas na alma. São diversos episódios dessa natureza e impressiona como certos dirigentes são capazes de ferir e até matar as ovelhas! Fazem contra o próximo aquilo que Jesus Cristo nunca fez contra quem o perseguiu e crucificou... 
 
E aqui entra o cabresto e a mordaça!
 
Quem permanece nesses ambientes tem que aceitar passivamente as imposições e os excessos. Isso porque há líderes que formam nos crentes um espírito de submissão a homens. O uso frequente do autoritarismo teológico e das ameaças espirituais sem fundamento bíblico para ocultar irregularidades, tais como: “não toque no ungido do Senhor”, “ai daquele que se levanta contra a igreja”, “ai daquele que julga seu irmão” e coisas semelhantes, acabam provocando temor desmedido e incapacidade de reagir frente ao pecado, principalmente naqueles que são mais novos na fé. “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.” (Zacarias 4.6).
 
Esse tipo de submissão não é virtude, mas pecado de omissão (Levítico 5.1; Ezequiel 33.7-9; Mateus 18.15-17). Além disso, contraria frontalmente o espírito Bíblico no relacionamento entre a Igreja como corpo e Cristo como cabeça (Efésios 5.24-25; Hebreus 3.1-2 e 10.15-16). Porque a consciência do cristão não deve ser dominada por homens, mas precisa estar subordinada aos princípios éticos, morais e espirituais delineados pela Bíblia Sagrada. “Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis.” (Colossenses 3.24).
 
Ora, a Palavra de Deus nos adverte: “Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio para que não se cheguem a ti” (Salmos 32.9). Mas, Infelizmente, há crentes vivendo debaixo de cabresto religioso, apesar de serem chamados à liberdade de serviço e adoração a Cristo. Muitos estão convivendo com um cristianismo desprovido de entendimento, alheios à soberania do Reino de Deus e Sua justiça, deixando de desfrutar do privilégio de servir ao Senhor Jesus sem estar subjugado a homens (Mateus 11.29-30). Comportam-se como se não tivessem vontade própria, permitindo ser dominados por um tradicionalismo denominacional que em nada contribui para a maturidade cristã frente aos desafios do nosso século.
 
E assim, crentes de várias estaturas se deixam amordaçar! Calam-se por migalhas de pão, quando poderiam desfrutar de uma mesa farta. Apegados a títulos, cargos e honras no palco dos templos, muitos estão emudecidos diante do pecado, mergulhados no comodismo da autojustificação criada pelo prazer de cumprir uma programação religiosa. Até parece que não vão prestar contas a Deus. Curvam-se diante de absurdos cometidos no seu arraial, mas condenam com veemência o pecado daqueles que estão fora de suas tendas. 
 
Diante dessa realidade, cabe a cada um examinar a si mesmo acerca do tipo de cristianismo que está vivendo. Se está ou não debaixo de cabresto e de mordaça! É preciso compreender qual é a autoridade que tem prevalecido sobre a conduta cristã. A sua vida é dominada por imposições humanas e regras de religiosidade, que criam classes distintas e limitam a liberdade entre os membros? Ou você é guiado por princípios imutáveis das Escrituras, que mostram a justa cooperação de cada parte na edificação do corpo de Cristo (I Coríntios 12.12-27; Efésios 4.11-16), e nos impulsiona na luta contra o pecado (Hebreus 12.4). Escolha hoje a quem servir, porque Deus não nos chamou para a servidão de regras de denominação. “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão.” (Gálatas 5.1). 
 
Conclui-se ressaltando que o cristianismo dos nossos dias clama e reclama por liderança que tenha como líder o Supremo Pastor, Jesus Cristo: “Eu sou o bom Pastor, o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10.11). Precisamos de homens e mulheres que tenham compaixão das pessoas, que dêm a própria vida em favor delas como fez o Senhor Jesus. Contudo, se não puderem chegar a tanto, que sejam capazes de praticar pelo menos isto: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes tornando-vos modelos do rebanho” (I Pedro 5.2-3). Enfim, que conduzam as ovelhas no verdadeiro cristianismo, livre de qualquer cabresto ou mordaça!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A IGREJA DENTRO DA LEI - Atos e Contratos de Gestão Eclesiástica

“... se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá; para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e poder para todo o sempre. Amém.” I Pedro 4.11


Por Adiel Teófilo.

A maneira de administrar uma igreja não é igual a de uma empresa. No entanto, quando se trata dos negócios terrenos, ainda que voltados para os interesses do Reino de Deus, existem diversas semelhanças entre as duas formas de administração. Isso porque as organizações religiosas, para realizar adequadamente seus negócios financeiros e patrimoniais, precisam cumprir as disposições legais vigentes no país, tal como as empresas. Aliás, quando se trata de uma igreja, o que se espera na sua gestão administrativa é que o zelo e a correção sejam bem maiores que em qualquer empreendimento empresarial.
 
Assim sendo, existem atos, contratos e outros documentos jurídicos, utilizados por empresas e também por particulares, que podem muito bem ser aplicados às organizações religiosas. A finalidade no uso desses instrumentos é tornar a administração segura e mais eficiente, resguardando os legítimos interesses da denominação evangélica.
 
A prática tem demonstrado que a falta de documentação adequada pode acarretar consequências desagradáveis para os gestores e para as igrejas. Podemos mencionar, dentre outras situações, prejuízos financeiros e patrimoniais, impossibilidade de exigir o cumprimento de obrigação, dificuldades de provar o que realmente foi pactuado com terceiros, além de desgastes emocionais e demandas judiciais que poderiam ser evitadas.
 
Por essa razão, não bastam boas intenções na gestão de negócios da igreja. E aqui talvez reside o principal problema de vários administradores: fazer negócios apenas “de boca”, confiando excessivamente nas pessoas, inclusive naqueles que se dizem cristãos, como se todos fossem de fato convertidos. Logo, não convém tolerar situações de informalidade, sem qualquer registro por escrito, nem celebrar todos os contratos verbalmente, confiando na boa vontade de terceiros, esperando que cumpram sempre as obrigações que assumiram. E cabe aplicar aqui as palavras de Jesus: “..., sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas.” (Mateus 10.16).
 
Diante disso, revela-se de suma importância formalizar as relações contratuais em documento próprio. A finalidade primordial é assegurar o exercício de direitos, bem como exigir o cumprimento de obrigações, além de proporcionar transparência e credibilidade na prestação de contas. Na elaboração dos diversos documentos é indispensável observar os requisitos previstos em lei, para que tenham validade e produzam os efeitos jurídicos pretendidos pelas partes. Nesse sentido, pode ser de grande valia a assistência de profissional da advocacia. 
 
Dentre as situações que podem ser melhor administradas nas organizações religiosas, destaca-se a do trabalho voluntário. Há pessoas que se apresentam, principalmente nas pequenas igrejas, para prestar voluntariamente serviços de limpeza, zeladoria, dentre outros. Contudo, depois de algum tempo, passam a exigir direitos trabalhistas, promovendo inclusive reclamação judicial para receber verbas salariais, sob o argumento de que mantinham vínculo empregatício com a igreja.
 
Para corrigir essa situação, pode ser elaborado um Termo de Adesão ao Trabalho Voluntário, com amparo na Lei nº 9.608, de 18 de fevereiro de 1998. Por meio desse documento, fica registrado que a atividade desempenhada em favor da igreja é na condição de prestador de serviço voluntário, o que não gera vínculo empregatício, nem obrigação de natureza trabalhista, previdenciária ou afim. Ressalta-se que esse documento deve ser utilizado somente nos casos em que de fato não há vínculo empregatício, isto é, quando o serviço é prestado gratuitamente.

No sobredito Termo de Adesão deverá constar qual é o serviço voluntário que a pessoa desempenhará, bem como as suas atribuições, as quais podem estar previamente definidas no Estatuto ou no Regimento Interno da igreja. Deverá conter ainda, a assinatura do prestador de serviço voluntário, do pastor presidente ou do administrador da igreja e de duas testemunhas que tenham presenciado a lavratura do documento.
 
Por outro lado, nos casos em que a igreja possui empregados, com jornada de trabalho, atribuições e salário previamente fixados, o correto é firmar o contrato na Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS). Deve providenciar também o recolhimento dos encargos trabalhistas e previdenciários que são devidos. Não é incomum encontrar nas igrejas empregados que trabalham há vários anos sem qualquer registro em carteira. A regularização da situação trabalhista propicia garantias para ambas as partes, evitando a aplicação de multas e outros encargos para o empregador e assegurando ao empregado o direito à aposentadoria, dentre outros benefícios.
 
No tocante aos contratos que podem ser utilizados pelas igrejas, as possibilidade são inúmeras. Na verdade, todas as espécies de contratos firmados entre particulares podem ser também celebrados pelas organizações religiosas. Até mesmo porque as igrejas regularmente criadas possuem a natureza de pessoa jurídica de direito privado, e, nessa condição, podem firmar todos os contratos previstos na legislação que forem compatíveis com as suas finalidades, além dos contratos atípicos, desde que observadas as normas gerais fixadas no Código Civil – Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002.
 
Dentre os diversos contratos, menciona-se o de comodato de imóvel. Aplica-se aos casos em que um imóvel é cedido gratuitamente para servir de moradia a terceiro. Essa situação é encontrada, por exemplo, nos locais onde o zelador ou alguém que toma conta do templo e das dependências passa a residir em imóvel da igreja. Nesses casos é bastante comum tudo ser feito apenas “de boca”, sem qualquer documento que oficialize a utilização. É comum também surgir dificuldades futuras para reaver o imóvel, diante da recusa em restituí-lo por razões as mais diversas. É recomendável, por conseguinte, firmar o respectivo contrato, estipulando o prazo, as condições e as responsabilidades referentes ao comodato.
 
Outro contrato importante é o de locação de imóvel, na hipótese da igreja utilizar como templo um imóvel alugado. As regras pertinentes estão previstas na Lei nº 8.245, de 18 de outubro de 1991, que dispõe sobre as locações dos imóveis urbanos. A celebração do contrato por escrito assegura à igreja a possibilidade de melhor exercer os direitos previstos em lei, além de evitar eventuais abusos por parte do locador, como a retomada indevida do imóvel. Convém ressaltar que no caso de imóvel alugado, a igreja não tem direito à isenção do IPTU, pois o imóvel locado continua na propriedade do particular que fez a locação.
 
A supracitada Lei estabelece que nas locações de imóveis utilizados por organizações religiosas devidamente registradas, o contrato somente poderá ser rescindido nas seguintes hipóteses: I - por acordo entre as partes; II - em decorrência da prática de infração legal ou contratual; III - por falta de pagamento do aluguel e demais encargos; IV - para a realização de reparos urgentes determinados pelo Poder Público, que não podem ser normalmente executados com a permanência do locatário no imóvel, ou ainda, podendo ser executados, o locatário se recuse a consentir na realização dos reparos; e, V – se o proprietário pedir o imóvel para demolição, edificação, licenciada ou reforma que resulte no aumento mínimo de cinqüenta por cento da área útil do imóvel. Desse modo, não será possível desfazer a locação fora desses casos, razão pela qual é recomendável formalizar sempre o respectivo contrato.
 
Noutro giro, no âmbito dos atos de gestão eclesiástica propriamente dita, sugere-se a utilização do Termo de Posse e Responsabilidade Patrimonial. Pode ser utilizado, além dos registros em Ata, para documentar a posse de dirigente de igreja ou de congregação. Nele poderão constar os compromissos e as responsabilidades que o novo dirigente está assumindo, como por exemplo, cumprir as normas previstas no Estatuto e no Regimento Interno, bem como a obrigação de transmitir ao sucessor as atribuições e o patrimônio da igreja, quando dispensado da função.
 
É importante salientar, para a validade do Termo, que nele devem constar as assinaturas do pastor presidente, do dirigente empossado e de pelo menos duas testemunhas que tenham presenciado a lavratura do ato. Esse instrumento pode ser de grande valia para assegurar direitos da igreja e exigir o correto desempenho da função, além de ser útil nas situações em que o dirigente, depois de regularmente dispensado, recusa-se a transmitir o cargo e o patrimônio.
 
Por fim, ressalta-se que as organizações religiosas podem aprimorar a eficiência e as garantias na sua gestão administrativa. Para tanto, precisam elaborar a tempo e de forma adequada os diversos atos, termos e contratos jurídicos, específicos para cada situação e atendendo aos objetivos da igreja. Dessa maneira, estarão resguardando o regular funcionamento e o fiel cumprimento das suas finalidades institucionais. Cuida-se, portanto, de administrar com zelo e responsabilidade tudo que for dedicado ao Reino de Deus.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

CRENTES LINGUARUDOS

Por Adiel Teófilo.

Todo cristão sabe que deve ser prudente no falar, porém todos nós tropeçamos em muitas coisas, principalmente no uso da língua. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.” (Tiago 3.2). E nessa matéria, quem é perfeito? Quem é capaz de dominar a própria língua? A verdade é que, não raras vezes, falamos além da conta, dizemos o que não convém e o que não promove a edificação de quem ouve.  

Isso ocorre porque o  fato de alguém se tornar cristão não significa dizer que ganhou instantaneamente a virtude do domínio da língua. É preciso se exercitar na prudência e sobretudo aprender a se submeter ao domínio do Espírito Santo. Porque até mesmo entre cristãos se verifica a falta do amor fraternal, que é externado na maneira afável de falar e de tratar um ao outro. Esse mesmo problema ocorreu nas igrejas da Galácia: “Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros.” (Gálatas 5.14-15).

Aquele que não consegue dominar a sua língua, acaba subjugando todo o seu corpo ao que diz. A Escritura nos mostra, de maneira ilustrada, a força desse domínio e os resultados que produz na vida do ser humano. Ensina-nos que o freio colocado na boca dos cavalos é capaz de dirigir todo o seu corpo; e as grandes embarcações, levadas por ventos impetuosos, são guiadas por um bem pequeno leme, virando-se para onde bem quer a vontade daquele que as governa. “Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia. A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.” (Tiago 3.3-6).

A Palavra de Deus nos mostra ainda, que as feras do campo, as aves, os repteis e os animais marinhos, são amansados e domados pelo ser humano, “mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal.” (Tiago 3.8). Diante disso, a força suficiente para conter a língua e a habilidade necessária para o seu uso correto, somente são adquiridas mediante a ação controladora do Espírito Santo, quando humildemente nos submetemos à sua direção. Ele atua diretamente na natureza humana, fazendo cessar as “obras da carne” (Gálatas 5.19-21), e produzindo o fruto do Espírito, que nos capacita ao pleno exercício da virtude do “domínio próprio” (Gálatas 5.22).

Outra grande dificuldade que temos é de guardar segredo. Existem determinados assuntos que não devem ser revelados, pois nem todos têm maturidade para conhece-los ou não conseguem manter o sigilo. Há também assuntos que convém ser comentados somente em momento oportuno. Por essas e outras razões é que o domínio da língua torna-se indispensável na vida do cristão.

A Bíblia Sagrada contém relatos de personagens que não preservaram seus segredos, os quais sofreram com as consequências de suas atitudes. José contava a todos os seus irmãos tudo que sonhava, “por isso ainda mais o odiavam por seus sonhos e por suas palavras.” (Gênesis 37.8). Movidos por ódio e inveja, seus irmãos passaram a persegui-lo, chamando-o de “sonhador-mor”. Por fim conspiraram matá-lo, porém o venderam como escravo para mercadores ismaelitas, que o levaram para o Egito (Gênesis 37).
 
Outro personagem é Sansão, que não resistiu aos apelos de uma mulher e acabou revelando seu segredo. O Espírito do Senhor se apossava dele tão poderosamente e o dotava de grande força, tornando-o capaz de despedaçar um leão como se fosse um cabrito, sem ter nada nas mãos (Juízes 14.6). Sansão se afeiçoou a Dalila. Os príncipes dos filisteus ofereceram a ela uma boa soma em dinheiro para descobrir em que consistia aquela grande força e como poderia ser dominado. E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte. E descobriu-lhe todo o seu coração...” (Juízes 16.16-17).
 
E assim, de posse do segredo, Dalila o fez dormir sobre os seus joelhos e mandou rapar-lhe as sete tranças do cabelo de sua cabeça, retirando-se dele a sua força. “E disse ela: Os filisteus vêm sobre ti, Sansão. E despertou ele do seu sono, e disse: Sairei ainda esta vez como dantes, e me sacudirei. Porque ele não sabia que já o SENHOR se tinha retirado dele.” (Juízes 16.20). Desse modo, o entregou nas mãos dos filisteus, que lhe arrancaram os olhos e o amarraram com duas cadeias de bronze, fazendo-o girar um moinho no cárcere.
 
Temos ainda o caso de Ezequias, Rei de Judá. Ele adoeceu mortalmente, mas depois de orar, suplicar e chorar muitíssimo, o SENHOR o sarou. O rei de Babilônia, ao tomar conhecimento que ele tinha estado doente, enviou-lhe cartas e um presente. Ezequias recebeu com alegria os embaixadores “e lhes mostrou toda a casa de seu tesouro, a prata, o ouro, as especiarias e os melhores unguentos, e a sua casa de armas, e tudo quanto se achou nos seus tesouros; coisa nenhuma houve que não lhes mostrasse, nem em sua casa, nem em todo o seu domínio.” (II Reis 20.13 e II Crônicas 32.31).
 
E qual foi a consequência desse excesso de confiança? Assim sentenciou o SENHOR ao Rei Ezequias, por intermédio do Profeta Isaías: “Eis que vêm dias em que tudo quanto houver em tua casa, e o que entesouraram teus pais até ao dia de hoje, será levado a Babilônia; não ficará coisa alguma, disse o SENHOR.” (II Reis 20.17 e Isaías 39.6).
 
Portanto, precisamos aprender a guardar segredo, bem como falar apenas o que convém e na medida certa, para não sofrermos com as consequencias. E a melhor forma de desenvolver esse aprendizado é compartilhar nossos segredos com Deus, por meio da oração reservada, sem exibição pública, tal como nos ensinou Jesus Cristo: Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente.” (Mateus 6.6). E assim, somente com a Graça de Cristo e o fruto do Espírito deixaremos de ser crentes linguarudos!  

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